O Brasil envelhece rapidamente e, para especialistas, o desafio não é apenas prolongar a vida, mas garantir autonomia, vínculos, movimento, propósito e dignidade às pessoas
As projeções do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE indicam que a estrutura demográfica brasileira mudará profundamente nas próximas décadas.
Os dados apontam que o número de pessoas com 60 anos ou mais deve passar de 33 milhões para 75,3 milhões até 2070.
A mudança inverterá a pirâmide etária: os idosos representarão quase 40% da população. A virada acontecerá em 2046, quando esse segmento superará jovens e crianças.
O fenômeno exigirá adaptações sociais e estruturais significativas. A população vive mais, tem menos filhos e chega à velhice em condições diferentes das gerações anteriores. O desafio é preparar a sociedade.
O geriatra Hugo Melo resume a mudança: “Eu preciso acumular vida aos anos que eu tenho pela frente. Muito mais do que anos à vida que eu tenho.” Para ele, envelhecer com qualidade significa conservar a capacidade de fazer aquilo que se deseja.
O sono não é detalhe. “Com sono desregulado, você fica irritado, você fica estressado, você não come bem, você se sente mal durante o dia”, explica. A atividade física reduz riscos de quedas e hospitalizações e traz benefícios cognitivos e cardiovasculares.
Hugo conta ter acompanhado pacientes de 80 anos que, após trabalho de força e equilíbrio, recuperaram movimentos difíceis. “Não tem uma idade mínima”, afirma.
A genética não é sentença. Alimentação, exercício, sono, educação, ambiente e relações sociais interferem na expressão dos genes. Envelhecer de forma saudável não significa viver sem doenças, mas controlá-las e preservar a capacidade funcional.
"Sabemos que envelhecer não é doença; envelhecer é uma trajetória", diz o geriatra Hugo Melo | Foto: Acervo pessoalPor isso, Hugo rejeita a ideia de transformar a velhice em doença. “Sabemos que envelhecer não é doença, envelhecer é uma trajetória”, diz. Há ainda o propósito.
“O que afasta muito o envelhecimento do adoecimento é o senso de propósito”, afirma. Pode estar na família, no trabalho, em um projeto, na leitura ou em qualquer atividade que dê sentido à vida.
A força muscular é fundamental. Com sua perda, diminuem mobilidade e funcionalidade e aumenta o risco de quedas. Por isso, Jonathan afirma: “O músculo é o nosso maior patrimônio fisiológico.”
A profissional de Educação Física Fernanda Salles, que é especialista em saúde do idoso, segue a mesma lógica. Para ela, o exercício não serve apenas para prolongar a vida. É preciso “dar mais vida aos dias daquela pessoa”.
Na prática, pode significar levantar da cadeira, caminhar, brincar com o neto ou ajoelhar-se na igreja. “O principal da prática de exercício físico é manter essa independência, é manter essa autonomia da pessoa idosa”, afirma Fernanda.
Jonathan compara o exercício a uma poupança: o que se constrói hoje faz diferença daqui a dez, vinte ou trinta anos.
Mas é preciso considerar a história de vida e as potencialidades que permanecem. “Precisamos pautar um pouco na história de vida da pessoa, e não nas perdas dela”, explica.
A criatividade importa. Pintar, desenhar ou modelar não são apenas atividades manuais. “É pra mover o psiquismo, é pra achar mos outros modos, outros gestos, outros caminhos”, diz Andréa.
Os vínculos, tão importantes para a natureza humana, podem diminuir com o passar dos anos. Amigos morrem, familiares se afastam e a pessoa pode se isolar. “Quanto mais ela se isola, menos estímulos ela tem”, observa Andréa. Manter uma vida ativa pode significar frequentar uma igreja, participar de um grupo, ir a um centro de convivência ou cultivar amizades. “O que é mais legal é o convívio.”
Nesse contexto, a solidão deixa de ser apenas um problema emocional. Andréa fala em uma espécie de “desidratação de vínculo”: sem alguém por perto, até um gesto básico como lembrar de beber água pode deixar de acontecer.
Ela critica as representações estereotipadas da velhice - como doença ou sabedoria obrigatória. “Você pode ser velho de muitas formas”, diz. E pessoas idosas podem, sim, viajar, namorar, andar de bicicleta, criar e viver experiências novas.
Isso passa também pela cidade. Calçadas inadequadas e falta de espaços de convivência podem transformar limitações físicas em isolamento. “Como é que a cidade acolhe os velhos?”, questiona.
Há ainda uma questão pouco considerada: o tempo. A velhice pode trazer uma desaceleração dos movimentos, enquanto a sociedade continua funcionando sob a lógica da velocidade. “Uma sociedade que é da aceleração, da rapidez, tem pouca disponibilidade para o tempo mais lento que a velhice vai trazer”, observa.
O país precisa se preparar. “O Brasil, em 30 anos, vai ser um país de idosos”, assevera. Isso exige políticas públicas capazes de acompanhar uma população com necessidades e desejos diferentes.
Rudá chama atenção para as relações. Ele informa que grande parte dos estudos sobre o assunto indicam, por exemplo, que homens idosos tendem a se apoiar mais na família, enquanto mulheres recorrem mais às amizades. Por isso, políticas para a terceira idade deveriam incluir espaços de encontro, eventos, viagens e atividades culturais.
O envelhecimento não é igual para todos. Condições econômicas, saúde, moradia, lazer e redes de apoio influenciam como cada pessoa envelhece. Para Rudá, sem políticas públicas, a longevidade pode ampliar desigualdades.
Mas essa mudança não significa trabalhar até os 80 ou 100 anos. Ele questiona essa lógica: “A gente vive por trabalho?” E completa: “A gente vive para trabalhar? [...] ou a gente vive pela vida, pelas relações sociais?”
Essa pergunta encontra eco na fala de Hugo. Não existe receita única. “Eu acho que manter a saúde mental, manter a saúde física, fazer o que a gente gosta, ter senso de propósito, cuidar das doenças que aparecerem é o caminho para preservar, tanto quanto possível, a capacidade de continuar fazendo aquilo que dá sentido à vida”.
As cidades precisam estar prontas para os idosos. A falta de espaços de convivência pode transformar limitações físicas em isolamento | Foto: MagnificFernanda resume outra parte desse cuidado: “Nunca é tarde para que a gente possa começar a se movimentar.” Antecipar esse cuidado permite construir uma reserva muscular para quando o corpo mais precisar dela.
A mudança mais importante deve ser deixar de conceber a velhice como um lugar de chegada e compreendê-la como continuidade: um corpo que ainda pode se mover. Uma mente que pode criar novos caminhos.
Relações que podem ser reinventadas. Desejos que não expiram com a idade. E um propósito que pode mudar de forma sem desaparecer.
O Brasil está envelhecendo. O desafio não é apenas preparar o Brasil para que as pessoas vivam mais, mas para que continuem sendo, tanto quanto possível, autoras da própria história.
Ilustração: GregBLOG DO BILL NOTICIAS
