sexta-feira, 23 de outubro de 2026

FOLHA SAÚDE - Longevidade com qualidade: como viver mais e melhor

 

O Brasil envelhece rapidamente e, para especialistas, o desafio não é apenas prolongar a vida, mas garantir autonomia, vínculos, movimento, propósito e dignidade às pessoas


                                  Por Leonardo Vila Nova

Durante muito tempo, envelhecer foi associado a perdas: de força, autonomia, vínculos e papéis sociais. Mas essa imagem já não dá conta do Brasil que se desenha.

As projeções do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE indicam que a estrutura demográfica brasileira mudará profundamente nas próximas décadas.

Os dados apontam que o número de pessoas com 60 anos ou mais deve passar de 33 milhões para 75,3 milhões até 2070.

A mudança inverterá a pirâmide etária: os idosos representarão quase 40% da população. A virada acontecerá em 2046, quando esse segmento superará jovens e crianças.

O fenômeno exigirá adaptações sociais e estruturais significativas. A população vive mais, tem menos filhos e chega à velhice em condições diferentes das gerações anteriores. O desafio é preparar a sociedade.

O geriatra Hugo Melo resume a mudança: “Eu preciso acumular vida aos anos que eu tenho pela frente. Muito mais do que anos à vida que eu tenho.” Para ele, envelhecer com qualidade significa conservar a capacidade de fazer aquilo que se deseja.

Essa ideia atravessa as falas dos profissionais ouvidos pela Folha Saúde. Viver mais é uma conquista. Viver melhor envolve corpo, mente, relações, ambiente e propósito.

Equilíbrio
A medicina ampliou a longevidade, mas também aumentou a presença de doenças crônicas e degenerativas entre os idosos. Para Hugo, isso reforça a importância de pilares como alimentação, sono, atividade física, relações sociais e controle do estresse.

O sono não é detalhe. “Com sono desregulado, você fica irritado, você fica estressado, você não come bem, você se sente mal durante o dia”, explica. A atividade física reduz riscos de quedas e hospitalizações e traz benefícios cognitivos e cardiovasculares.

As relações contam. Manter amizades, conversar, cultivar rituais familiares e compartilhar momentos felizes repercute no bem-estar. No conjunto, o segredo não está em uma fórmula milagrosa, mas, sim, no equilíbrio.
E nunca é tarde para começar.

Hugo conta ter acompanhado pacientes de 80 anos que, após trabalho de força e equilíbrio, recuperaram movimentos difíceis. “Não tem uma idade mínima”, afirma.

A genética não é sentença. Alimentação, exercício, sono, educação, ambiente e relações sociais interferem na expressão dos genes. Envelhecer de forma saudável não significa viver sem doenças, mas controlá-las e preservar a capacidade funcional.

"Sabemos que envelhecer não é doença; envelhecer é uma trajetória", diz o geriatra Hugo Melo | Foto: Acervo pessoal

Por isso, Hugo rejeita a ideia de transformar a velhice em doença. “Sabemos que envelhecer não é doença, envelhecer é uma trajetória”, diz. Há ainda o propósito.

“O que afasta muito o envelhecimento do adoecimento é o senso de propósito”, afirma. Pode estar na família, no trabalho, em um projeto, na leitura ou em qualquer atividade que dê sentido à vida.

Patrimônio
Se o envelhecimento não deve ser encarado como doença, também não precisa ser recebido passivamente. Para o profissional de Educação Física Jonathan Nícolas, o exercício deve ser individualizado, considerando intensidade, volume, modalidade e necessidades físicas e funcionais.

A força muscular é fundamental. Com sua perda, diminuem mobilidade e funcionalidade e aumenta o risco de quedas. Por isso, Jonathan afirma: “O músculo é o nosso maior patrimônio fisiológico.”

A profissional de Educação Física Fernanda Salles, que é especialista em saúde do idoso,  segue a mesma lógica. Para ela, o exercício não serve apenas para prolongar a vida. É preciso “dar mais vida aos dias daquela pessoa”.

Na prática, pode significar levantar da cadeira, caminhar, brincar com o neto ou ajoelhar-se na igreja. “O principal da prática de exercício físico é manter essa independência, é manter essa autonomia da pessoa idosa”, afirma Fernanda.

Os exercícios podem trabalhar força, equilíbrio, resistência e flexibilidade. Fernanda destaca os multicomponentes, que integram diferentes capacidades, porque uma perda pode interferir em outra.
E nunca é tarde para começar.

Jonathan compara o exercício a uma poupança: o que se constrói hoje faz diferença daqui a dez, vinte ou trinta anos.

Vínculos
Se o corpo precisa de movimento, a mente precisa de troca. Para a psicóloga, arteterapeuta, analista em formação pelo IPABahia- AJB- IAAP e diretora do Espaço Rizoma, Andréa Graupen, compreender o envelhecimento exige olhar para a biografia de cada pessoa. “As perdas acontecem mesmo”, reconhece.

Mas é preciso considerar a história de vida e as potencialidades que permanecem. “Precisamos pautar um pouco na história de vida da pessoa, e não nas perdas dela”, explica.

A criatividade importa. Pintar, desenhar ou modelar não são apenas atividades manuais. “É pra mover o psiquismo, é pra achar mos outros modos, outros gestos, outros caminhos”, diz Andréa.

Os vínculos, tão importantes para a natureza humana, podem diminuir com o passar dos anos. Amigos morrem, familiares se afastam e a pessoa pode se isolar. “Quanto mais ela se isola, menos estímulos ela tem”, observa Andréa. Manter uma vida ativa pode significar frequentar uma igreja, participar de um grupo, ir a um centro de convivência ou cultivar amizades. “O que é mais legal é o convívio.”

Nesse contexto, a solidão deixa de ser apenas um problema emocional. Andréa fala em uma espécie de “desidratação de vínculo”: sem alguém por perto, até um gesto básico como lembrar de beber água pode deixar de acontecer.

Preconceito
Outro fator pode adoecer: o etarismo. Em uma sociedade que valoriza excessivamente a juventude, envelhecer pode ser visto como algo condenável. “Se vivemos numa sociedade onde envelhecer é condenável, isso também vai ser interiorizado”, afirma Andréa.

"O Brasil, em 30 anos, será um país de idosos", conclui o sociólogo, cientista político e presidente do Instituto Cultiva, Rudá Ricci | Foto: Instituo Cultiva/Divulgação

Ela critica as representações estereotipadas da velhice - como doença ou sabedoria obrigatória. “Você pode ser velho de muitas formas”, diz. E pessoas idosas podem, sim, viajar, namorar, andar de bicicleta, criar e viver experiências novas.

Isso passa também pela cidade. Calçadas inadequadas e falta de espaços de convivência podem transformar limitações físicas em isolamento. “Como é que a cidade acolhe os velhos?”, questiona.

Há ainda uma questão pouco considerada: o tempo. A velhice pode trazer uma desaceleração dos movimentos, enquanto a sociedade continua funcionando sob a lógica da velocidade. “Uma sociedade que é da aceleração, da rapidez, tem pouca disponibilidade para o tempo mais lento que a velhice vai trazer”, observa.

Desigualdades
O sociólogo, cientista político e presidente do Instituto Cultiva, Rudá Ricci, amplia a discussão social e política. Para ele, o Brasil envelhece porque as condições de vida melhoraram, enquanto as famílias passaram a ter menos filhos.

O país precisa se preparar. “O Brasil, em 30 anos, vai ser um país de idosos”, assevera. Isso exige políticas públicas capazes de acompanhar uma população com necessidades e desejos diferentes.

Rudá chama atenção para as relações. Ele informa que grande parte dos estudos sobre o assunto indicam, por exemplo, que homens idosos tendem a se apoiar mais na família, enquanto mulheres recorrem mais às amizades. Por isso, políticas para a terceira idade deveriam incluir espaços de encontro, eventos, viagens e atividades culturais.

O envelhecimento não é igual para todos. Condições econômicas, saúde, moradia, lazer e redes de apoio influenciam como cada pessoa envelhece. Para Rudá, sem políticas públicas, a longevidade pode ampliar desigualdades.

Caminhos
Aos 63 anos, Rudá pratica musculação, caminha entre 7 e 10 quilômetros por dia e trabalha. Ele lembra que, quando era criança, alguém de sua idade já seria considerado aposentado. “Eu não consigo me imaginar nem de longe nessa situação”, afirma.

Mas essa mudança não significa trabalhar até os 80 ou 100 anos. Ele questiona essa lógica: “A gente vive por trabalho?” E completa: “A gente vive para trabalhar? [...] ou a gente vive pela vida, pelas relações sociais?”

Essa pergunta encontra eco na fala de Hugo. Não existe receita única. “Eu acho que manter a saúde mental, manter a saúde física, fazer o que a gente gosta, ter senso de propósito, cuidar das doenças que aparecerem é o caminho para preservar, tanto quanto possível, a capacidade de continuar fazendo aquilo que dá sentido à vida”.

As cidades precisam estar prontas para os idosos. A falta de espaços de convivência pode transformar  limitações físicas em isolamentoAs cidades precisam estar prontas para os idosos. A falta de espaços de convivência pode transformar  limitações físicas em isolamento | Foto: Magnific

Fernanda resume outra parte desse cuidado: “Nunca é tarde para que a gente possa começar a se movimentar.” Antecipar esse cuidado permite construir uma reserva muscular para quando o corpo mais precisar dela.

A mudança mais importante deve ser deixar de conceber a velhice como um lugar de chegada e compreendê-la como continuidade: um corpo que ainda pode se mover. Uma mente que pode criar novos caminhos.

Relações que podem ser reinventadas. Desejos que não expiram com a idade. E um propósito que pode mudar de forma sem desaparecer.

O Brasil está envelhecendo. O desafio não é apenas preparar o Brasil para que as pessoas vivam mais, mas para que continuem sendo, tanto quanto possível, autoras da própria história.

O rápido envelhecimento da população brasileira | Fonte: IBGEIlustração: Greg

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