No Brasil, o impacto político dessa derrota é inevitável. Orbán foi uma das principais referências ideológicas de Jair Bolsonaro, que não apenas o admirava publicamente como foi chamado de “irmão” pelo líder húngaro. A relação entre ambos nunca foi protocolar: representava uma aliança simbólica entre governos que flertavam com o autoritarismo, o nacionalismo exacerbado e o enfraquecimento de instituições democráticas.
Não por acaso, após ser derrotado nas eleições de 2022, Bolsonaro passou duas noites hospedado na embaixada da Hungria em Brasília - um gesto que claro de ensaio por busca de refúgio diplomático. O episódio, por si só, já evidencia o grau de identificação política entre os dois líderes e o tipo de projeto que compartilhavam.
Durante seus anos no poder, Orbán promoveu mudanças profundas que servem de alerta. Reformou a Constituição para concentrar poderes, interferiu diretamente no Judiciário, restringiu a atuação da imprensa independente, perseguiu organizações da sociedade civil e atacou universidades. Além disso, implementou políticas de controle ideológico sobre a educação e utilizou o aparato estatal para favorecer aliados políticos e econômicos. Em resumo, construiu um modelo que se auto-denominava de “democracia iliberal”, onde eleições existiam, mas um regime em que o jogo era desigual e as instituições progressivamente capturadas.
É justamente esse modelo que inspira setores do bolsonarismo. Não é difícil imaginar que figuras como Flávio Bolsonaro, em um imaginário retorno da extrema-direita ao poder, buscariam adaptar elementos desse projeto ao contexto brasileiro. Ataques ao Supremo Tribunal Federal, escola cívico-militares, tentativas de controle da imprensa, deslegitimação do processo eleitoral e perseguição a opositores que já fazem parte da experiência recente do país - e poderiam se aprofundar.
Por isso, a derrota de Orbán não é apenas um fato local: é uma vitória simbólica da democracia em escala global. Representa a capacidade de resistência das instituições e, sobretudo, da população diante de projetos que buscam corroer direitos e liberdades.
No Brasil, essa mensagem ecoa com força. Em 2022, a sociedade brasileira já demonstrou seu compromisso com a democracia ao rejeitar o autoritarismo nas urnas. Agora, ao observar o que ocorre na Hungria, reforça-se a percepção de que esse não é um fenômeno isolado, mas parte de uma disputa maior entre democracia e extremismo.
Se a história recente serve de guia, há motivos para acreditar que, assim como na Hungria, o Brasil seguirá reafirmando sua escolha democrática. E, em outubro, mais uma vez, poderemos celebrar não apenas uma vitória eleitoral, mas a reafirmação de um princípio fundamental: a democracia, apesar de constantemente ameaçada, continua sendo mais forte do que o autoritarismo.