quinta-feira, 30 de outubro de 2025

“Brasil vai ser o campeão de transição energética”, afirma Lula

 

O Programa Mover prevê a alocação de R$ 19 bilhões até 2028 e atualmente conta com 231 empresas habilitadas



Lula (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva enfatizou a vocação brasileira em liderar pelo exemplo a transição energética e reafirmou a qualidade dos biocombustíveis nacionais, durante encontro nesta quinta-feira (30), com o CEO da Be8, Erasmo Carlos Battistella, e o presidente da Mercedes-Benz do Brasil & CEO América Latina, Denis Güven. O Programa Mover prevê a alocação de R$ 19 bilhões até 2028 e atualmente conta com 231 empresas habilitadas.

“Basta ter vontade política e basta ter coragem de fazer. O Brasil vai ser o campeão de transição energética”, afirmou. A reunião com os executivos debateu a iniciativa “Rota Sustentável COP30: do sul ao norte com energia renovável”, e a agenda de descarbonização e transição energética promovida pelo Governo do Brasil e apoiada conjuntamente pelas duas empresas.

O Brasil responde por cerca de 25% da produção mundial de biocombustíveis e opera com mistura B15 (15% de biodiesel no diesel fóssil) em escala nacional. A capacidade instalada das usinas permite atingir rapidamente B22, o que representaria uma economia de US$ 150 milhões por ano em importação de diesel fóssil.

Atualmente, o setor emprega 2,4 milhões de pessoas, movimenta R$ 9 bilhões anuais em matérias-primas da agricultura familiar e já evitou a emissão de 127 milhões de toneladas de CO₂eq, o equivalente ao plantio de 930 milhões de árvores. Cada R$ 1 investido em biodiesel gera R$ 4,40 na economia, fortalecendo a cadeia produtiva e promovendo desenvolvimento regional sustentável.

Como parte da iniciativa Rota Sustentável COP30, as empresas demonstraram a contribuição do biocombustível Be8 BeVant na redução da emissão de gases de efeito estufa (GEE), deslocando dois caminhões e dois ônibus fabricados pela Mercedes-Benz para percorrerem cerca de 4 mil km entre Passo Fundo (RS) e Belém (PA), cidade-sede da COP30. Nesta quinta, os veículos foram expostos no estacionamento ao lado do Anexo do Palácio do Planalto, para visitação do público.

Lula recebeu uma amostra do combustível Be8 BeVant, produto nacional que reduz em até 99% as emissões de GEE liberadas durante o uso do combustível pelo veículo. O presidente afirmou, durante o encontro com os executivos, que o objetivo do Brasil é parar as emissões de CO2. “Com a inteligência humana do Brasil, com engenheiros brasileiros, com engenheiras brasileiras, a gente consegue mostrar ao mundo que a transição energética que o mundo sonha não é tão difícil”, assegurou.

“Não tenho dúvida que, depois que nós aprovamos o Combustível do Futuro, toda a nossa matriz energética vai mudar. A gente vai continuar utilizando o petróleo, enquanto for necessário, mas é importante que a nossa empresa, a Petrobras, é mais do que uma empresa de petróleo e vai se transformar com o tempo em uma empresa de energia. E o sucesso será total e absoluto”, completou o presidente Lula.

O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, abordou o leque de oportunidades propiciadas pela aprovação da Lei do Combustível do Futuro. “Os biocombustíveis representam o equilíbrio da balança comercial do agronegócio brasileiro, produzido através da soja, do milho, do etanol, do milho, que protagoniza o etanol no Brasil, e isso é muito importante para o equilíbrio da balança comercial brasileira. Mas, principalmente, a oportunidade que a gente vê a liderança do presidente Lula em mostrar para o mundo o potencial que o Brasil tem para descarbonizar o planeta”, frisou.

Participaram ainda da reunião o vice-presidente da República e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin; o ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho; o secretário nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis do MME, Renato Dutra; o diretor de Comunicação e Relações Institucionais da Mercedes-Benz, Luiz Carlos Gomes de Moraes; e o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Moisés Selerges.

Caravana

A caravana da Rota Sustentável COP30 iniciou o trajeto no dia 21 de outubro em Passo Fundo, integrou a programação de evento em São Bernardo do Campo (SP), em 23 de outubro, e nesta quinta (30) participam do ato oficial na capital federal, antes de começar o trajeto rumo a Santo Antônio do Tauá (PA), com previsão de chegada em 5 de novembro.

Durante o percurso, um caminhão e um ônibus estarão abastecidos com o Be8 BeVant e os outros dois com o Diesel B15 (com apenas 15% biodiesel) para que o resultado das emissões seja comparado.

Durante o trajeto entre Passo Fundo e Belém, os veículos percorrem o país abastecidos com diferentes proporções de biodiesel, até chegarem ao local da conferência.

O Instituto Mauá de Tecnologia será o responsável por auditar as emissões e conferir rastreabilidade e credibilidade aos dados de consumo dos veículos envolvidos na Rota Sustentável COP30 para que os resultados sejam apresentados na COP30.

Já em São Bernardo do Campo, um dos pontos de parada da caravana, os resultados parciais demonstraram redução de 99% no ciclo tanque à roda e de 65% do poço à roda – que engloba as emissões totais da produção, transporte e uso efetivo do combustível.

Biodiesel

O CEO da Be8, Erasmo Carlos Battistella, destacou que há diversas iniciativas em andamento que promovem o uso do biodiesel, em uma variedade de setores, para ampliar o processo de descarbonização defendido pelo Brasil. “Cidades já utilizam o Be8 como teste para a descarbonização no transporte público”, afirmou.

“Cito como exemplo Porto Alegre, Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro, que têm hoje uma nova oportunidade de continuar utilizando os ônibus com a motor a combustão que são produzidos no Brasil, com a indústria brasileira gerando emprego, e movidos a um biocombustível brasileiro que é verde por natureza e efetivamente entrega toda a grande descarbonização que estamos comprovando com essa grande rota com a Mercedes-Benz”.

Relações aprofundadas

Em 2006, o presidente Lula participou da cerimônia de lançamento da pedra fundamental da empresa, em Passo Fundo (RS). Já o vice-presidente e ministro da Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, participou da cerimônia de anúncio da primeira usina de etanol em grande escala do Rio Grande do Sul, em 2023.

Além disso, durante a sanção presidencial do Projeto de Lei (PL) do Combustível do Futuro, em 2024, a Be8 anunciou investimentos de R$ 400 milhões para a instalação de uma planta de biodiesel de soja em Uberaba (MG).

Alckmin definiu a reunião com executivos como um bom exemplo da política Nova Indústria Brasil (NIB): “Inovadora, competitiva e sustentável.”

Combustível do futuro

A Lei do Combustível do Futuro promove a mobilidade sustentável de baixo carbono no Brasil e estabelece um conjunto de medidas para incentivar a transição energética, incluindo programas para incentivar o diesel verde (HVO), o biocombustível de aviação (SAF), o biometano e a captura e armazenamento de carbono. A medida também altera os percentuais mínimos e máximos de mistura do etanol na gasolina e do biodiesel no diesel. - 247.



VIOLÊNCIA NO RIO - Bandidos de Pernambuco e outros estados reforçavam CV no RJ e são desafio na identificação de mortos

Segundo a Polícia Civil, dos 133 presos na megaoperação nos complexos do Alemão e da Penha, pelo menos 33 eram de fora do Rio de Janeiro - três, de Pernambuco


                             Por Agência O Globo

Vista da favela Vila Cruzeiro, no complexo da Penha, no Rio de Janeiro, Brasil, em 29 de outubro de 2025, após a Operação Contenção - Foto: Pablo Porciuncula/AFP


A megaoperação das forças de segurança do Rio foi além de escancarar um cenário típico de guerra. Com o uso de drones para lançar granadas contra os agentes, o tráfico demonstrou grande resistência para defender os principais quartéis-generais do Comando Vermelho (CV).

Ao entrar nas comunidades, os policiais também se depararam com a resistência de criminosos de outras regiões do país, que vieram para o Rio em busca de abrigo nas favelas e passaram a reforçar o “exército” do tráfico carioca, principalmente nas áreas de mata.

Um reforço e tanto. Dos 113 presos, pelo menos 33 eram de fora do Rio de Janeiro, segundo a Polícia Civil. Em um levantamento interno, a corporação identificou a origem de 28 deles: 18 da Bahia, três de Pernambuco e quatro do Pará. Outros três foram reconhecidos como vindos de Santa Catarina, Espírito Santo e Maranhão.

Fontes das polícias civis de outros estados afirmam que cada comunidade do Rio funciona de um jeito, mas que os criminosos que buscam refúgio no Rio precisam colaborar com a proteção do território, fazendo “plantões” e exibindo armamentos pesados.

Entre os fuzis apreendidos pelas forças de segurança, pelo menos dois tinham a inscrição CV AM (Comando Vermelho do Amazonas) e outro trazia a marca “Tropa de Manaus”.

Um pastor da Penha, sob anonimato, afirmou ser comum a presença desses forasteiros na mata da Vacaria, na Serra da Misericórdia, no Complexo da Penha. Foi lá que a maior parte do confronto com a polícia aconteceu durante a megaoperação.

"Quem fica na mata é o pessoal do Pará, da Bahia, de Goiás e até do Amazonas. Eles ficam de plantão por lá, mas não conhecem bem a região, nem o modo de operação da polícia. Por medo, costumam andar em grupos e acabam virando alvos fáceis",  relatou.

Por sua vez, o subsecretário operacional da Polícia Civil, Carlos Oliveira, confirma que muitas lideranças de fora já foram identificadas no Rio:

"Temos informações de inteligência de que chefes do crime de outros estados estão se instalando em complexos do Rio, onde encontram relativa tranquilidade para manter os negócios e ordenar execuções em seus estados de origem".

Na noite de terça (28), em frente ao Hospital Estadual Getúlio Vargas, que recebeu parte dos corpos da operação, duas mulheres de Goiás aguardavam notícias dos maridos. Uma delas contou que estava em chamada de vídeo com o companheiro, abrigado na Vacaria, quando ele foi alvejado por policiais. Desde então, não teve mais notícias.

"Meu marido morrer assim... nem sei onde ele está. No hospital, informaram que ele não chegou. Não há registro dele, mas com certeza está morto", disse, aos prantos.

Plantões na mata
Depoimento prestado à Polícia Civil do Pará por um criminoso daquele estado revela que a cúpula do CV nos complexos do Alemão e da Penha determina que traficantes da facção oriundos de outros estados deem plantões portando fuzis na mata da Serra da Misericórdia. O bandido passou parte do ano de 2023 escondido no Rio.

Alexander Alves de Moura, preso e condenado pela Justiça paraense a 33 anos e quatro meses de prisão em abril passado, afirmou aos agentes que se filiou ao CV em 2018 para atuar em Ananindeua, na Região Metropolitana de Belém.

Em 2023, no entanto, Moura e um comparsa, identificado como Lak, vieram para o Rio para fugir da polícia paraense e passaram a morar no Complexo da Penha. No depoimento, ele detalhou o período em que viveu no Rio e contou que a cúpula do CV fluminense cobra um pagamento semanal de R$ 250 de cada traficante de fora que deseja se estabelecer.

De acordo com Moura, para serem liberados do pagamento, os traficantes forasteiros são obrigados a tirar um plantão “na mata que dividia o Complexo da Penha do Complexo do Alemão, com um fuzil”.

O criminoso afirmou ainda que as armas usadas nesses plantões na Serra da Misericórdia eram entregues por Edgar Alves de Andrade, o Doca, chefe do tráfico do Complexo da Penha e principal alvo da ação de ontem. Doca, no entanto, não foi localizado.

Outras investigações também revelam que, com o processo de nacionalização do CV, o Complexo do Alemão virou um entreposto de drogas para estados do Nordeste. Em setembro de 2023, Ana Laura da Costa Pinho e Maria Eduarda da Silva Mota, moradoras do Complexo do Alemão, foram presas no município de Tauá, no sertão do Ceará, com 50 quilos de maconha.

Dias antes, elas haviam retirado a carga no Alemão e embarcado num ônibus na Rodoviária do Rio com destino a Crateús. O objetivo da viagem era entregar a droga a criminosos da cidade cearense. Elas voltariam ao Rio no mesmo dia da entrega, em um voo saindo de Fortaleza. Pelo serviço, cada uma receberia R$ 2 mil.

Desafio para identificação
A polícia continua realizando a identificação dos 121 mortos na megaoperação e ainda não tem informação de quantos são de outras regiões do país. Contudo, com uma tenda de atendimento montada no pátio do Detran, no Centro do Rio, a equipe da Defensoria Pública enfrenta o que classifica como o maior desafio da operação de “guerra” para identificar os mortos na ação policial: a quantidade de vítimas vindas de outros estados.

A defensora Mirela Assad, que coordena a atuação de mais de 40 funcionários do órgão no local, afirma que a procura por pessoas sem vínculos familiares diretos com os mortos tem sido muito maior do que o esperado.

"O número de mortos de outros estados é surpreendente, mesmo sem contagem oficial. Isso é possível perceber pela grande procura de namoradas, amigos e conhecidos, mas não necessariamente de parentes", explica Mirela. "É um desafio ainda maior para a liberação dos corpos, porque exige uma declaração que permita a identificação por terceiros e também um trabalho de traslado".

Entre os que ainda procuram por desaparecidos está a namorada de Fernando Henrique dos Santos, de Goiás. O casal vivia no Rio há quatro anos. Segundo ela, Fernando saiu de casa por volta das 6h20 da manhã da anteontem e não voltou mais:

"Estou até agora procurando o corpo".


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Datafolha aponta Raquel Lyra e João Campos empatados na preferência espontânea para o Governo de PE

 

Levantamento mostra ambos com 23% das citações; menções indiretas mantêm cenário de equilíbrio


                                                Por Blog da Folha

Pesquisa aponta Raquel Lyra e João Campos empatados na preferência espontânea - Davi de Queiroz e Arthur Mota/Folha de Pernambuco


A pesquisa Datafolha, realizada entre os dias 21 e 23 de outubro em 43 municípios pernambucanos, registrou empate entre a governadora Raquel Lyra (PSD), e o prefeito do Recife, João Campos (PSB), ambos com 23% das intenções de voto espontâneas para o Governo de Pernambuco em 2026. O estudo foi encomendado pela CBN Recife e CBN Caruaru e divulgado nesta quarta-feira (29).


Quando consideradas as referências indiretas citadas pelos entrevistados, o cenário segue tecnicamente empatado. A governadora aparece com mais 3% das citações como “atual governadora”, enquanto o prefeito recebe 2% como “filho de Eduardo Campos”. Com a soma das menções, Raquel Lyra atinge 26% e João Campos, 25%, diferença dentro da margem de erro de três pontos percentuais.

A pesquisa também identificou menções a outras figuras políticas. O ex-governador Eduardo Campos foi lembrado por 1% dos eleitores, mesmo percentual do vereador recifense Eduardo Moura (Novo). Outras respostas somaram 5%.

O levantamento aponta ainda um alto percentual de indecisos e desinteressados: 7% declararam intenção de votar em branco, nulo ou em nenhum candidato, enquanto 36% não souberam responder.

Segundo o Datafolha, 1.022 eleitores foram entrevistados, com nível de confiança de 95% e margem de erro de três pontos percentuais, para mais ou para menos.

Confira os números:

João Campos (PSB): 23%
Raquel Lyra (PSD): 23%
Atual governadora (sem citar o nome): 3%
"Filho de Eduardo Campos": 2%
Eduardo Campos: 1%
Eduardo Moura (Novo): 1%
Outras respostas: 5%
Nenhum/Branco/Nulo: 7%
Não sabe: 36%

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quarta-feira, 29 de outubro de 2025

Testemunhas denunciam execuções e torturas no Rio: "carnificina"

 Operação Contenção contabiliza mais de 100 morto

                                         Isabela Vieira - Repórter da Agência Brasil

Fernando Frazão/Agência Brasil

operação policial realizada nesta terça-feira (28) contra o tráfico de drogas nos complexos da Penha e do Alemão, zona norte da cidade do Rio de Janeiro, foi marcada por execuções e torturas e classificada como carnificina por moradores, parentes dos mortos e pela Associação de Moradores do Parque Proletário da Penha.

A reportagem da Agência Brasil esteve no local e entrevistou testemunhas que tentaram socorrer as vítimas nas primeiras horas ou ajudaram na remoção dos corpos. Segundo a contagem oficial do governo do estado, são ao menos 119 vítimas. É a operação mais letal da história da capital fluminense. 

Para impedir a fuga dos suspeitos, a estratégia das polícias foi invadir as comunidades e montar "um muro" com agentes do Batalhão de Operações Especiais (Bope), bloqueando a fuga pelo alto da mata que circunda as duas comunidades. No local, segundo os relatos, se deu o confronto mais violento, com sinais de tortura e execução de dezenas de corpos resgatados e dispostos na manhã de hoje em frente à associação comunitária, na Praça São Lucas, na localidade conhecida por Vila Cruzeiro.

" A gente ouviu os gritos e pedidos de socorro e subiu para ajudar. Eu moro perto. Entrei na mata 3h da manhã.", contou um morador. O homem, de 25 anos, que preferiu não se identificar, contou que, naquele momento, a polícia ainda estava no local e tentou impedir a ajuda.

"Eles não paravam de dar tiro, tacar bomba de gás [lacrimogêneo] e, em muitos momentos, a gente teve que se proteger. Eles dando tiro, a gente se escondendo no meio dos corpos para prosseguir", relatou.

A testemunha esteve, mais cedo, no Instituto Médico-Legal (IML) para tentar liberar o corpo de um primo, morto na operação. Na tentativa de socorro, o homem revelou que o cenário na mata era desolador.

"A gente encontrou muitos mortos sem camisa, fuzilados, com mãos e dedos decepados e também decapitados. Eu vi bem uma cabeça que estava entre os galhos de uma árvore e o corpo jogado no chão", disse.

Ele mostrou à reportagem o vídeo da vítima encontrada nessas condições, identificada como Ravel. Fotógrafos que estiveram na área mais cedo também encontraram vítimas mortas com a cabeça cortada por faca.

Segundo a testemunha, os moradores que participaram do resgate acessaram ainda celulares encontrados no local ou receberam áudios das vítimas contando que tinham se rendido, antes da execução, contrariando a versão do governo do estado de que os mortos foram vitimados em confronto.

"Vocês viram os vídeos dos meninos saindo do bunker, ontem, se entregando? Eles não são um terço dos que se entregaram. Teve gente que pediu perdão, se ajoelhou, jogou os fuzis, mas foi morta".

O presidente da associação comunitária de Parque Proletário, Erivelton Vidal Correa, em entrevista na sede da entidade, na Penha, confirmou o depoimento da testemunha ouvida pela Agência Brasil e disse que desde às 19h da noite de terça, as famílias tentavam subir a mata para ajudar as vítimas. Ele avaliou que, se o socorro tivesse chegado antes, possivelmente, o número de mortos poderia ter sido menor.

A entidade chegou a levar seis baleados para o Hospital Estadual Getúlio Vargas, ontem, mas eles chegaram mortos à unidade.

"Retiramos um total de 80 corpos da área conhecida como Mata da Pedreira, com o nosso sistema, nossa mão de obra. Pedimos aos moradores que trouxessem lençóis, toalha, canga, o que tivessem, para ajudar com as remoções", contou Correa.

Rio de Janeiro (RJ), 29/10/2025 - Erivelton Vidal Correa, presidente da Associação Comunitária do Parque Proletário da Penha, Operação Contenção.
Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
Rio de Janeiro (RJ), 29/10/2025 - Erivelton Vidal Correa, presidente da Associação Comunitária do Parque Proletário da Penha, Operação Contenção. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Tortura

O presidente da associação também confirmou os sinais de tortura e execuções: "Muitos corpos deformados, com perfurações no rosto, perfurações de faca, cortes de digitais, dois corpos decapitados, a maioria dos corpos não tinha face, essa era a condição". Entre eles, o de dois irmãos manauaras. "Eles foram mortos abraçados com um tiro na cara cada um e tiveram as digitais cortadas".

Segundo Correa, durante todo o período de 11 anos que esteve na associação da Penha, nunca tinha se deparado com cenário tão violento. "Foi uma arbitrariedade muito grande. A gente sabe que o Estado tem que trabalhar, mas trabalhar direito, o que aconteceu aqui foi um genocídio, uma carnificina", disse.

"Eu não estou aqui para falar das escolhas de vida de cada um. Não estou aqui para falar nem mal, nem bem, da polícia ou do tráfico. Agora, todos os corpos que nós pegamos ali, antes, eles estavam vivos nas mãos deles [da polícia]. Eles podiam prender, mas não, mataram e largaram no mato".

Essa é a mesma opinião de Paula*, uma moradora que acompanhou a chegada dos corpos à sede da associação. "Foi um esculacho desnecessário. Se eles [polícia] vieram para fazer busca e apreensão, tinham que ter feito, e não matar a facada, tirar a cabeça, além dos policiais, os que estavam aqui também têm família, mãe, pai, esposa, filhos. E foram encontrados neste estado", disse.

Entre as vítimas, além de suspeitos de tráfico de drogas, Vidal Correa denuncia que há moradores.

"São pessoas daquela região, que a gente chama de 'lá de trás' e que criavam cavalos. Eles vão no mato buscar comida para os animais. Então, infelizmente, estavam no momento errado, na hora errada e sofreram perdendo a vida", denunciou. "Esperamos que isso seja esclarecido", completou. Hoje mesmo o IML começou o reconhecimento e liberou os primeiros corpos para enterro.

Perguntado sobre a razão de a polícia ter optado por deixar as vítimas mortas no local e até impedido o socorro, Vidal acredita que a opção foi para não gerar provas. "Se levassem para o hospital ou chamado a delegacia, ia comprovar o genocídio. Era mais conveniente largar para trás", completou.

Rio de Janeiro (RJ), 29/10/2025 - Luiz Fernando Argivaes, agente funerário da Vila Cruzeiro, durante protesto de moradores  contra execuçoes na comunidade da Vila da PenhaOperação Contenção.
Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
Rio de Janeiro (RJ), 29/10/2025 - Luiz Fernando Argivaes, agente funerário da Vila Cruzeiro, durante protesto de moradores contra execuções na comunidade da Vila da Penha. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Agência Brasil também ouviu o dono de uma agência funerária que atua na comunidade há 22 anos. Fernando Argivaes coordenou um grupo de seis pessoas que ajudou no resgate e deu o mesmo relato: "O estado dos corpos é precário. Foi uma verdadeira chacina, uma carnificina", disse. Eles encontraram pessoas mortas na mata, entre as pedras e chegaram a usar uma escada de eletricista. "Os corpos ficaram lá no meio do mato, na pedreira, gente que foi executada no local, pela maneira que foi, não foi auto de resistência (em confronto). Estavam escondidos e foram executados quando encontrados. 

 

Rio de Janeiro (RJ), 29/10/2025 - Dezenas de corpos são trazidos por moradores para a Praça São Lucas, na Penha, zona norte do Rio de Janeiro. Operação Contenção.
Foto: Tomaz Silva /Agência Brasil
Rio de Janeiro (RJ), 29/10/2025 - Dezenas de corpos são trazidos por moradores para a Praça São Lucas, na Penha, zona norte do Rio de Janeiro. Operação Contenção. Foto: Tomaz Silva /Agência Brasil - Tomaz Silva/Agência Brasil

Foi Fernando que chegou ao corpo dos dois irmãos de Manaus mortos abraçados e fez a remoção. Ele informou que haverá o traslado dos mortos, assim que houver a liberação pelo IML. A maior parte dos corpos deve ser liberada somente amanhã (30), a partir da identificação pela Polícia Civil.

Mães de mortos também questionaram a operação e denunciaram execuções de rendidos. "Está ouvindo os tiros?", pergunta Elizângela Silva à reportagem, enquanto exibe um vídeo de celular gravado de dentro da mata. "Eles estavam vivos quando a gente tentou subir a mata e a polícia jogou tiro contra nós". Ela é vizinha da mãe de uma das vítimas. "O menino pediu ajuda de manhã: 'mãe, me ajuda, pelo amor de Deus', mas chegou de noite, eles pegaram e mataram todos que estavam lá". Outras mães também denunciaram arbitrariedade contra jovens que já tinham se rendido.

Operação Contenção 

A Operação Contenção, realizada pelas polícias Civil e Militar do Rio de Janeiro, deixou 119 mortos, sendo 115 civis e quatro policiais, de acordo com o último balanço. O governo do estado considerou a operação “um sucesso” e afirmou que as pessoas mortas reagiram com violência à operação, e aqueles que se entregaram foram presos. No total, foram feitas 113 prisões. 

A operação contou com um efetivo de 2,5 mil policiais e é a maior realizada no estado nos últimos 15 anos. Os confrontos e as ações de retaliação de criminosos geraram pânico em toda a cidade, com intenso tiroteio, fechando as principais vias, escolas, comércios e postos de saúde. 

Na coletiva de imprensa, durante a tarde, na Cidade de Polícia, o secretário de Segurança Pública, Victor dos Santos, disse que os policiais seguiram as normas vigentes e que os desvios serão apurados. "O que as famílias falam, reclamam, denunciam, claro que são objeto de declarações junto às delegacias e foram instalados inquéritos para apurar esses confrontos, mas deixando claro que em todos esses inquéritos os polícias são vítimas, autores são os criminosos", declarou, negando as execuções.

* Nome fictício para preservar a identidade da vítima.


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Transnordestina - Governo ampliará trecho da ferrovia Transnordestina em Pernambuco

 

Obras ligarão Salgueiro ao Porto de Suape; edital sai na sexta-feira


                                 Por Agência Brasil
Ministro dos Transportes, Renan Filho - Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Br

O ministro dos Transportes, Renan Filho, disse que será publicado na sexta-feira (31) o edital que reincluirá na ferrovia Transnordestina o trecho que ligará Salgueiro ao Porto de Suape, em Pernambuco.

O trecho, segundo Renan Filho, foi retirado do projeto pelo governo anterior. O anúncio de retomada da obra até Suape foi feito nesta quarta-feira (29), durante o programa Bom Dia, Ministro, produzido pela Empresa Brasil de Comunicação (EBC).

“A boa nova é que o presidente Lula tomou a decisão de não retirar Pernambuco da estratégia do desenvolvimento do Nordeste ferroviário, e reincluiu o braço de Pernambuco, que vai de Salgueiro a Suape”, disse o ministro.

Transnordestina
A ferrovia Transnordestina está entre os chamados “grandes projetos estruturantes” planejados pelo governo federal para a região. A ferrovia terá uma extensão superior a 1,2 mil quilômetros, a um custo de aproximadamente R$ 15 bilhões.

O empreendimento ligará Eliseu Martins (PI) ao Porto do Pecém (CE), com um ramal até Suape (PE), atravessando 53 municípios. A expectativa é que comece a entrar em operação ainda em 2025, no trecho de 580 quilômetros entre o Terminal Intermodal de Cargas de Bela Vista (PI) e Iguatu (CE), passando pelo interior de Pernambuco.

“A Transnordestina está voando no Ceará e no Piauí, onde há 5 mil pessoas trabalhando nas obras”, destacou o ministro. “E, na sexta-feira, vamos publicar o edital de licitação da ferrovia no braço Salgueiro-Porto de Suape”, acrescentou.

Caminhoneiros
Ainda durante o programa Bom Dia, Ministro, Renan Filho disse que pretende ampliar para 50 o número de pontos de parada e de descanso para caminhoneiros. “O Brasil não tinha ponto de parada e descanso para caminhoneiro. Já entregamos oito e esperamos chegar a 50 pontos até o final do governo do presidente Lula”, disse.

“Essa é a nossa meta. Uma meta ousada que garantirá, nestes pontos de parada, locais seguros para alimentação, banho e descanso. Ali, ele poderá parar seu caminhão de graça”, acrescentou ao lembrar que, em muitos casos, os caminhoneiros têm de pagar caro para pernoitar em postos de gasolina.


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Moradores protestam contra execuções na comunidade Vila da Penha


O empreendedor Raull Santiago fez um desabafo. 'A desigualdade grita e o poder direciona o seu ódio numa prática o mais brutal possível'

Rio de Janeiro (RJ), 29/10/2025 - Moradores protestam contra execuções na comunidade da Vila da Penha, alvo da Operação Contenção. No carro está escrito 'organize seu ódio' (Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil)

Ativistas que acompanharam a retirada de mais de 60 corpos de uma área de mata no Complexo do Penha, um dia após a maior operação policial realizada no Rio de Janeiro nos últimos 15 anos, classificam o evento como uma “chacina” e um “massacre” promovidos por forças de segurança. O governo do estado do Rio contabilizou 121 mortos após a operação na zona norte da capital.

O empreendedor Raull Santiago, nascido no Morro do Alemão, foi um dos primeiros a noticiar o encontro dos corpos. Ele usou transmissões ao vivo pelas suas redes sociais. “Essa é a face da cidade maravilhosa, que é capital na América Latina quando a gente pensa em turismo. E eu amo a minha cidade, o meu estado, a minha favela, mas há esses momentos em que a desigualdade grita, o poder direciona o seu ódio e traz na prática mais brutal possível o seu recado para quem vive em comunidades como a nossa”, lamentou.

“Infelizmente, pela minha realidade, eu já estou acostumado a ver corpos, baleados, estraçalhados. Mas, [com] isso aqui, eu nunca vou me acostumar”, disse Raull Santiago sobre o choro das mães diante dos corpos de seus filhos.

“Tanto essas execuções, quanto os policiais que morreram, tudo isso [são] marcos históricos que gritam a ineficiência da política de segurança pública do Rio de Janeiro. Ou, pior que isso, a eficiência dela, a forma como ela é desenhada, estruturada, pensada e aplicada para lidar com algumas vidas", afirmou Santiago. "Da favela para dentro, tiro, porrada, bomba, invasão, desrespeito, chacina, massacre. Em outros endereços, o tratamento é quase vip”, criticou.

Punição

O presidente da organização não governamental Rio de Paz, Antônio Carlos Costa, também acompanhou a retirada dos corpos e pediu responsabilização do governador do estado, Cláudio Castro, pela tragédia. Ele lembrou, entretanto, que esse episódio se assemelha a muitos outros já ocorridos no estado.

“O que há de novo nesse massacre? Apenas a sua extensão, a quantidade de mortos… O que não há de novo é essa política de segurança pública, a destruição da vida do morador de comunidade. Quando ouvimos as respostas sobre a operação, ouvimos o que foi falado há 40, 50 anos atrás", lamentou.

"As causas desse gravíssimo problema social já foram elucidadas, mas por que medidas tão óbvias não são implementadas? Porque falta vontade política. Porque quem morre são os moradores de comunidades e porque são eleitos homens que conseguem chegar aos mais altos postos com o discurso do “bandido bom é bandido morto”, completou o presidente da ONG Rio de Paz.

Federação das favelas

Movimentos populares e de favelas também condenaram as ações policiais e afirmaram que "segurança não se faz com sangue". A Federação das Associações de Favelas do Rio de Janeiro (Faferj) divulgou nesta quarta-feira (29) uma carta pública de repúdio contra o que foi chamado de “massacre dos Complexos da Penha e do Alemão”.

“Os relatos de horror que emergiram dessas comunidades – com cenas de guerra, execuções sumárias, violação de domicílios, impedimento de socorro a feridos e a total suspensão dos direitos mais básicos – não são incidentes isolados. São a face mais crua de uma política de segurança pública falida e genocida, que há décadas trata as favelas e seus moradores como territórios inimigos e cidadãos de segunda categoria”, diz o documento.

A Faferj também manifestou indignação por acreditar que a vida dos moradores das favelas está sendo tratada como “dano colateral em operações que, sob o pretexto de combater o crime, semeiam terror, luto e trauma coletivo.” Diz assim que a política de segurança atual apenas “aprofundou o abismo social, naturalizou a violência de Estado e perpetuou um ciclo de morte que só interessa ao projeto de extermínio da população pobre e negra deste país.”

Além das palavras de repúdio, o documento traz também reivindicações da organização, como a “desmilitarização das abordagens policiais nas favelas” e a construção de uma nova política de segurança pública pautada pelo cuidado e pela garantia de direitos.

Para a Federação, um “sistema que funcione” precisa contemplar também políticas de educação, com escolas em tempo integral, lazer, com a criação e manutenção de espaços de convivência e cultura.

A Faferj reivindica ainda medidas de emprego e renda, como capacitação e criação de vagas formais, e de habitação, como saneamento básico, urbanização e regularização fundiária. “Segurança se faz com presença do Estado, não com invasão. Com políticas sociais, não com políticas de morte. Com vida digna, não com luto permanente”.

Organização das Nações Unidas (ONU) e outras entidades fizeram críticas à maneira como aconteceu a operação policial contra a facção criminosa Comando Vermelho (CV), que nasceu no estado na década de 70. Atualmente, o CV conta com forte poderio econômico e tem ramificações em mais de 20 estados brasileiros.

Ações

procurador-Geral da República, Paulo Gonet, pediu ao Supremo Tribunal que determine ao governo do Rio de Janeiro a prestação de 11 esclarecimentos solicitados pela PGR. O Ministério da Justiça e Segurança Pública, chefiado por Ricardo Lewandowski, detalhou como a pasta está gerenciando a situação com o Executivo estadual.

prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, afirmou que a prefeitura continuará trabalhando “com autoridade, comando e firmeza” para proteger a população. O chefe do Executivo municipal também comentou sobre a prestação de serviços na cidade.

No Congresso Nacional, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), determinou nesta terça (29) a instalação da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Crime Organizado, após a chacina no Rio (com Abr). - 247.


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Castro aceita integração com governo federal e cria "escritório emergencial contra o crime"

 

Anúncio foi comunicado na presença do ministro Lewandowski, após a chacina policial que matou ao menos 119 pessoas no Rio

Rio de Janeiro (RJ) - 29/10/2025 - O ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, juntamente com o governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, durante entrevista coletiva para falar sobre a chacina policial (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)

O governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, anunciou nesta quarta-feira (29), ao lado do ministro da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski, medidas para enfrentar a crise desencadeada no estado após uma operação policial assassinar ao menos 119 pessoas, na véspera. 

Ao lado do ministro, que viajou ao estado diante da falta de informações fornecidas pelo estado ao governo federal, Castro anunciou, segundo o portal G1, o "escritório emergencial contra o crime".

A coordenação ficará a cargo do secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, Victor Santos, e do secretário Nacional de Segurança Pública, Mário Sarrubbo. 

Castro também declarou apoio a uma integração "100%" na Segurança Pública com o governo federal. "Inclusive na perspectiva de vencermos possíveis burocracias, integrarmos inteligências, respeitando as competências de cada órgão, mas tentando eliminar barreiras para que nós possamos, de fato, fazer uma segurança pública que atenda ao cidadão", disse Castro em coletiva. - 347.


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