Iniciativa dos Estados Unidos pode ampliar influência externa sobre recursos estratégicos brasileiros
Integrantes do governo brasileiro avaliam que os termos do acordo podem criar vantagens significativas para empresas estrangeiras, especialmente dos Estados Unidos. O texto da proposta prevê prioridade para esses investidores em projetos ligados à exploração de minerais estratégicos no país.
Um dos pontos mais sensíveis envolve a cláusula que estabelece preferência na entrada de capital estrangeiro. O documento afirma que os participantes “esperam ter a primeira oportunidade de investir, de acordo com as leis domésticas, em ativos de minerais críticos que possam ser vendidos no Brasil ou por uma empresa sediada ou incorporada no Brasil”.
Na prática, essa diretriz pode abrir espaço para maior presença de capital estadunidense no setor mineral brasileiro. A avaliação dentro do governo indica que essa condição pode levar a um cenário de concentração de investimentos externos em áreas estratégicas da economia nacional.
A proposta apresenta semelhanças com um acordo já firmado entre Estados Unidos e Austrália, mas traz diferenças que ampliam o alerta entre autoridades brasileiras. No caso australiano, o pacto inclui um compromisso de investimento mínimo de US$ 1 bilhão. A versão destinada ao Brasil não estabelece qualquer valor mínimo.
Outro ponto que chama atenção envolve mecanismos de governança. O acordo com a Austrália prevê reuniões periódicas em nível ministerial para acompanhamento das ações. Esse dispositivo não aparece na proposta direcionada ao Brasil, o que levanta questionamentos sobre equilíbrio e transparência nas tratativas.
Os minerais críticos ocupam papel central em setores estratégicos da economia global. Esses recursos incluem lítio, cobalto, níquel e terras raras, fundamentais para a produção de baterias, equipamentos de energia renovável, semicondutores e tecnologias de defesa.
A relevância desses insumos cresce diante da expansão da transição energética e da digitalização da economia. Países buscam garantir acesso estável a essas matérias-primas para reduzir dependência externa e fortalecer cadeias produtivas.
Nesse contexto, a negociação com os Estados Unidos ocorre em meio a disputas globais por recursos minerais e coloca em debate o equilíbrio entre atração de investimentos e preservação da autonomia econômica do Brasil.
Entenda
As chamadas terras raras reúnem 17 elementos químicos essenciais para a transição energética global, entre eles lantânio, cério, praseodímio, neodímio, promécio, samário, európio, gadolínio, térbio, disprósio, hólmio, érbio, escândio, túlio, itérbio, lutécio e ítrio. Esses minerais, classificados como críticos, ocupam posição estratégica em setores como defesa e energia, devido à sua importância em tecnologias avançadas.
O Brasil aparece como o segundo país com maiores reservas desses recursos no mundo, com cerca de 21 milhões de toneladas. A liderança pertence à China, que concentra aproximadamente 44 milhões de toneladas, enquanto a Índia ocupa a terceira colocação, com 6,9 milhões de toneladas. Os dados referem-se a 2024 e foram divulgados pelo Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), com números também publicados pelo Valor Econômico em julho do ano passado.
A aplicação dessas matérias-primas se estende a diversos segmentos industriais de alta tecnologia. Elas entram na fabricação de turbinas eólicas, veículos híbridos, televisores de tela plana, celulares, lâmpadas fluorescentes compactas, ímãs permanentes, catalisadores automotivos, lentes especiais e sistemas militares como mísseis guiados.
Na produção global, a China mantém ampla liderança, com extração de 270 mil toneladas em 2024. Os Estados Unidos aparecem em seguida, com 45 mil toneladas, e Myanmar ocupa a terceira posição, com 31 mil toneladas produzidas no mesmo período.
Apesar do volume expressivo de reservas, o Brasil ainda explora pouco esses recursos. Em 2024, o país produziu apenas 20 toneladas, o que evidencia um grande potencial ainda não desenvolvido nesse segmento considerado estratégico. - 247.
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