Investigação aponta saques superiores a R$ 3 milhões e suspeita de fraude em licitações do DNIT no Amapá
De acordo com o relatório da PF, agentes passaram a acompanhar os passos do empresário após um alerta do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), que identificou movimentações financeiras consideradas atípicas, com sucessivos saques em espécie realizados pouco tempo depois do recebimento de recursos oriundos de contratos públicos. Segundo os investigadores, o padrão das retiradas pode indicar indícios de lavagem de dinheiro.
Saques monitorados pela Polícia Federal
As apurações apontam que as empresas ligadas a Breno Chaves Pinto realizaram retiradas em dinheiro que, somadas, ultrapassam R$ 3 milhões. Em relatório, a PF afirma que as movimentações ocorreram em datas próximas a pagamentos de contratos públicos firmados com o DNIT no Amapá.
“As investigações financeiras demonstraram vultosos e sucessivos saques em espécie, que ultrapassam R$ 3 milhões, das contas de suas empresas, em datas próximas a pagamentos de contratos públicos, configurando indícios de lavagem de capitais”, registra o documento da Polícia Federal.
Os investigadores também suspeitam que o empresário teria papel central em um esquema que envolveria manipulação de licitações do DNIT. Conforme o inquérito, ele atuaria como líder de um dos núcleos da organização investigada, exercendo influência sobre a superintendência do órgão no estado.
Segundo a PF, Chaves Pinto teria “exercido forte ingerência institucional no DNIT/AP, valendo-se de sua condição de suplente de senador da República para praticar, em tese, o crime de tráfico de influência”.
Episódio do saque de R$ 350 mil
Um dos episódios detalhados no relatório ocorreu em 7 de novembro de 2024, em uma agência bancária no município de Santana (AP), localizado a cerca de 20 quilômetros de Macapá. Alertados de que o empresário havia solicitado a retirada de R$ 350 mil em espécie, agentes da PF se posicionaram nas proximidades da agência para monitorar a movimentação.
De acordo com o documento, Breno Chaves Pinto chegou ao local às 13h14, no banco do passageiro de uma SUV branca. Ele entrou na agência com uma mochila azul e permaneceu no interior do estabelecimento por aproximadamente meia hora. Ao sair, retornou ao mesmo veículo, que aguardava do lado de fora, e seguiu em direção à sede de uma de suas empresas.
A Polícia Federal identificou que o automóvel utilizado estava registrado em nome da empresa Lojas 2A Ltda., que comercializa produtos importados em Macapá. A companhia pertence a Alberto Brasil Alcolumbre e André Luiz Brasil Alcolumbre, primos de primeiro grau do presidente do Senado.
Questionamentos sobre veículo
Em nota enviada posteriormente, a assessoria de Davi Alcolumbre informou que o veículo registrado em nome da empresa dos primos foi vendido oficialmente para Breno Chaves Pinto em julho de 2025, cerca de nove meses após o episódio monitorado pela PF.
Já André Alcolumbre afirmou que a venda teria ocorrido ainda em 2022 e que o pagamento foi recebido regularmente. Segundo ele, a transferência da propriedade não foi formalizada na época por “erro material”.
Pela legislação brasileira de trânsito, o comprador tem prazo de até 30 dias para registrar a transferência do veículo no órgão competente.
Defesa do empresário
Procurado pela reportagem, Breno Chaves Pinto declarou que as retiradas em dinheiro estariam relacionadas a pagamentos operacionais de sua empresa.
“O presente processo tramita sob segredo de Justiça, razão por que as manifestações da defesa ocorrem exclusivamente nos autos, em estrita observância às determinações legais”, afirmou o empresário em nota.
O senador Davi Alcolumbre também se manifestou e declarou que “não possui qualquer relação com a atuação empresarial de seu segundo suplente”.
Suspeitas de fraude em licitações
A investigação da Polícia Federal aponta a existência de um grupo que teria atuado para fraudar o caráter competitivo de licitações realizadas pela superintendência do DNIT no Amapá. Os contratos sob análise somam cerca de R$ 60,2 milhões e envolvem obras de manutenção e recuperação de trechos da BR-156.
Segundo decisão da Justiça Federal que autorizou diligências, foram identificadas conversas e troca de documentos entre representantes de empresas e dirigentes do órgão antes mesmo da publicação dos editais, o que pode indicar direcionamento dos processos licitatórios.
Uma das mensagens interceptadas mostra o então superintendente regional do DNIT agradecendo ao suplente de Alcolumbre pelo aumento de recursos destinados ao órgão. Em outro diálogo citado no processo, ele solicita que o empresário peça ao senador que pressione o governo pela liberação de pagamentos.
“Solicita a Breno que fale com o senador Davi Alcolumbre para postar uma foto, e para ‘dar uma pressão no governo para liberar nossos empenhos’”, registra trecho da investigação.
Impacto nas obras da BR-156
Auditorias da Controladoria-Geral da União identificaram lentidão na execução das obras vinculadas aos contratos investigados, além de possíveis irregularidades na aplicação de recursos públicos.
A BR-156 é a principal rodovia do Amapá, com aproximadamente 823 quilômetros de extensão entre Laranjal do Jari e Oiapoque. Problemas na manutenção da estrada têm impacto direto na mobilidade e no acesso da população a serviços essenciais no estado.
O DNIT informou, em nota divulgada na época da operação policial, que colabora com as investigações e que suas instâncias internas de integridade analisam os fatos para eventual adoção de medidas administrativas. O órgão declarou ainda que “repudia qualquer prática fraudulenta ou ato de corrupção”.
Histórico de investigação
Breno Chaves Pinto já havia sido alvo de outra operação da Polícia Federal em dezembro de 2022. Na ocasião, agentes apreenderam cerca de R$ 800 mil em dinheiro vivo na sede de uma de suas empresas, durante investigação relacionada às mesmas obras rodoviárias no Amapá.
Segundo a PF, a apuração começou a partir de um inquérito que investigava inserção de informações falsas no sistema do Ibama para viabilizar a movimentação de créditos florestais associados à comercialização de madeira ilegal. No decorrer da investigação, foram identificados indícios de superfaturamento de aproximadamente R$ 6,1 milhões em obras executadas pela empresa do empresário.
Ele é investigado pelos crimes de organização criminosa, peculato, corrupção ativa e passiva, fraude à licitação, falsidade ideológica e lavagem de dinheiro. À época, o empresário declarou que a Justiça autorizou a devolução dos bens apreendidos e afirmou que a suspeita relacionada à compra de madeira irregular teria ocorrido por erro na destinação do material.
O avanço das investigações da Polícia Federal ocorre em meio a um ambiente de tensão política em Brasília. Nas últimas semanas, Davi Alcolumbre manifestou a interlocutores insatisfação com operações policiais no Amapá que atingem pessoas ligadas ao seu entorno político. - 247.