Ao contrário do que Flávio tenta vender, não há um Bolsonaro moderado — há apenas um projeto de poder, um oportunismo eleitoreiro
Brasil247.
A narrativa construída
pelo senador Flávio Bolsonaro de que ele seria expressão de uma facção moderada
dentro de seu próprio clã político serve a um propósito claro: anabolizar, pela
fraude, ambições eleitorais e afastar o espantalho do "bolsonarismo
radical", que afugenta o centro e é inaceitável mesmo para parte das
elites. Nos últimos meses, porém, essa fachada vem ruindo de forma acelerada. O
chamado “bolsonarismo light”, recitado pela mídia neoliberal, revela-se uma
ficção publicitária, e o mais recente sintoma dessa constatação é o
distanciamento, já explícito, de setores influentes do pensamento conservador
que por muito tempo flertaram com a direita. Mesmo entre partidos antes colados
ao bolsonarismo cresce a ambiguidade.
Ao
contrário do que Flávio tenta vender, não há um Bolsonaro moderado — há apenas
um projeto de poder, um oportunismo eleitoreiro que, diante do isolamento do
patriarca e do que ele significa, busca sobreviver fazendo o teatro do moço
cheiroso, mas montado sobre as mesmas vísceras autoritárias, negacionistas e
golpistas.
A
jornalista Miriam Leitão, conhecida por sua trajetória de críticas ao petismo,
foi direta em sua coluna recente. Ao analisar os movimentos de Flávio para se
descolar do pai, encarcerado por liderar violenta organização criminosa
golpista, Miriam apontou que o senador tenta “recolorir o bolsonarismo”, mas
que sua própria trajetória — incluindo o caso das rachadinhas e a lealdade
incondicional ao clã — desmente qualquer viragem. Para ela, a tentativa de
Flávio de se apresentar como uma alternativa negociadora esbarra na realidade:
o DNA do grupo é a ruptura institucional, e o filho jamais condenou os ataques
desferidos pelo pai ao sistema eleitoral ou os atos golpistas. Miriam não
expressa uma opinião isolada. Antes, aponta que a marca de descompromisso do
clã com a democracia encapsula as chances eleitorais de Flávio Bolsonaro.
Reinaldo
Azevedo, outro veterano que nunca escondeu seus arreganhos à esquerda, também
dedicou espaço ao tema. Para Azevedo, Flávio ensaia um discurso de centro para
agradar ao mercado financeiro e a parte do Judiciário, mas mantém o mesmo
manual tático de seu pai: ataque à imprensa, defesa de pautas de costumes
reacionárias e silêncio conveniente sobre a tentativa de golpe em 2023, que ele
apoia. Azevedo lembrou que o senador foi um dos articuladores do orçamento
secreto e blindou Jair nas piores horas. Portanto, tentar vender moderação é,
nas palavras dele, “insultar a inteligência de todos”. Isso sem falar do
crescimento patrimonial inexplicável de Flávio, de suas ligações com o crime
organizado miliciano, das rachadinhas em seu gabinete, da lavagem de dinheiro e
do empréstimo a taxas incompatíveis no BRB para a compra de uma mansão em
Brasília por R$ 6 milhões, mas que na verdade vale R$ 14 milhões.
Já
Ruy Castro, em sua coluna, foi cirúrgico ao descrever o cenário como um
“divórcio anunciado”. O cronista observa que as elites — incluindo setores do
agronegócio, do mercado financeiro e da chamada Nova Direita — começam a migrar
para outras lideranças, como Tarcísio de Freitas ou Romeu Zema, que oferecem a
agenda econômica liberal sem o estorvo golpista e a toxicidade familiar. Ruy
destaca que Flávio tem tentado se reunir com empresários e artistas para
construir uma imagem de “Bolsonaro que conversa”, mas o resultado tem sido o
oposto: ninguém acredita na moderação de quem cresceu à sombra das
manifestações com faixas pedindo intervenção militar. Talvez com certo exagero,
o colunista conclui que o não casamento das elites com Flávio é definitivo,
pois elas já compreenderam que apoiar o herdeiro significa apenas reviver o
espólio de um projeto autoritário que se recusa a mudar.
Esse
afastamento revela uma contradição profunda e incômoda no próprio seio das
elites. De um lado, a ala mais pragmaticamente liberal, capitaneada por setores
do mercado financeiro e do agronegócio, ainda enxerga em Flávio um instrumento
útil, uma potencial alavanca para um programa austericida e de desmonte do
Estado. Para esses, o senador serviria como cavalo de Troia para aprovar
reformas impopulares, privatizações e o arrocho fiscal, desde que mantida a
fachada da governabilidade. O cálculo é cínico, porém racional: usa-se o nome
Bolsonaro para a agenda econômica, enquanto se isola o núcleo golpista. Mas aí
reside a fissura. Outra parcela das elites abomina exatamente o que Flávio
representa como instrumento de sabotagem do valor principal, sobretudo nessa
conjuntura histórica: a democracia. Para esse grupo, reduzir o regime a um meio
para fins fiscais é aceitar a própria extinção das regras do jogo. Eles
compreendem que apoiar Flávio, mesmo como muleta para a eliminação dos
reajustes do salário mínimo acima da inflação e das verbas destinadas à saúde e
educação, significa validar a tática permanente de ruptura, a ameaça às instituições
que de algum modo garantem sua hegemonia e o apetite pela exceção. É essa
contradição não resolvida que trava o casamento definitivo. Enquanto uma parte
da elite ainda cogita o pacto maquiavélico, a outra já percebeu que não se
fazem reformas sobre escombros autoritários. E, por ora, o medo do golpismo,
ainda que por margem estreita, tem falado mais alto que a fome por cortes de
gastos.
É
essa a realidade que Flávio Bolsonaro insiste em maquiar. O mercado pode até
ter tolerado, no passado, o discurso truculento de Jair enquanto as reformas
andavam — mas o 8 de janeiro e a persistente defesa do revisionismo eleitoral
mudaram, ao menos em parte, a equação, e isso já se faz notar. Parte das
elites, em seu pragmatismo frio, calcula que o risco de associar-se à marca
Bolsonaro supera hoje qualquer ganho de curto prazo. E, ao contrário do que
tenta propagar o senador, essa rejeição não é ao “estilo”, mas à própria
substância.
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