sábado, 16 de maio de 2026

COMPORTAMENTO De onde vem a violência? Especialistas analisam origem e motivos do comportamento

 

Ser humano é violento por natureza ou apenas reflexo do contexto social no qual está inserido?


                                    Por William Tavares

“A violência, seja qual for a maneira como ela se manifesta, é sempre uma derrota”. A frase do filósofo francês Jean-Paul Sartre reforça como as relações humanas são afetadas por atos agressivos, sejam físicos ou emocionais. Mas seria o ser humano violento por natureza ou apenas um reflexo do contexto social em que está inserido? As ciências naturais e humanas tentam compreender esse mistério. Para desvendá-lo, talvez seja preciso aceitar que não há uma única resposta, mas várias que se sobrepõem e até se contradizem.

Corpo em alerta

Respiração acelerada, frequência cardíaca e pressão arterial elevadas. Os músculos se contraem. As pupilas se dilatam e o foco se estreita no ponto de atenção. No cérebro, o córtex pré-frontal, responsável pela tomada de decisão e pelo controle dos impulsos, perde força. Ao mesmo tempo, há uma descarga de adrenalina e cortisol, enquanto o fígado libera mais glicose na corrente sanguínea. É quando a amígdala cerebral assume o comando e aciona o estado de alerta. O corpo está pronto para reagir.

Diante de uma ameaça, o cérebro humano recorre a mecanismos de proteção ou ataque, como descreve o psicobiólogo Frederico Graeff no artigo “Emoções relacionadas à defesa em humanos”. A violência não começa na ação, mas na percepção da necessidade de agir.

Em um experimento com realidade virtual, pesquisadores observaram que, quando o perigo está distante, áreas ligadas à tomada de decisão permanecem ativas. Mas, à medida que a ameaça se aproxima, o controle racional perde espaço e o comando passa para regiões mais antigas do cérebro, associadas a respostas automáticas.

"Impulso biológico"

Já o etologista austríaco Konrad Lorenz, ganhador do Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina de 1973 por descobertas sobre a organização de padrões de comportamento individual e social, vê a violência como um instinto inato e biológico para a sobrevivência das espécies. Um impulso biológico que se acumula e precisa ser “descarregado”.

Há também estudos que apontam uma relação entre a genética e a agressividade. Um dos mais conhecidos, publicado na revista Science, em 2002, mostrou que variações no gene MAOA (Monoamina oxidase A), responsável por regular substâncias ligadas ao controle emocional, estão associadas a maior propensão à violência.

Estudo

Em 2009, a pesquisadora norte-americana Rose McDermott realizou um estudo que integrou biologia, psicologia e ciência política na compreensão do comportamento humano. Observando indivíduos com variações de baixa atividade do gene MAOA, foi relatado que os participantes só demonstraram maior nível de violência quando provocados e não de forma espontânea.

A professora de Genética Humana da Universidade de São Paulo (USP), Lygia da Veiga Pereira, porém, faz um alerta.

“O principal equívoco a meu ver é a ideia do determinismo genético, achar que estamos condenados ao nosso genoma. Sabemos muito bem que a maioria das nossas características são um resultado da combinação dos nossos genes com fatores ambientais e nosso estilo de vida”, ponderou. É a partir daí que as ciências humanas ampliam a discussão.

“Ultrapassado”

O cientista político e sociólogo Paulo Ribeiro cita que algumas teorias que tentavam explicar o comportamento violento como uma “condição genética” já foram superadas. Uma delas é a de que as pessoas teriam predisposição biológica ao crime.

“Cesare Lombroso, um criminologista italiano, e outros pesquisadores do passado tentaram atribuir aos não europeus algumas ‘tendências criminológicas’, mas isso já foi provado que não tem comprovação genética. Foi uma tentativa deplorável de estigmatizar outras raças”, explicou.

“Um dos frutos da violência é a concentração de renda e a exclusão social. Isso gera uma falta de perspectiva em uma grande parcela da população, trazendo a desesperança. É preciso criar políticas públicas para ajudar no bem-estar social. Não adianta trabalhar somente no ato final, de prender ou matar. Thomas Hobbes já falava da necessidade de existir a mão forte do Estado, com uma legislação para brecar essa violência”, reforçou, citando o filósofo inglês autor da obra “Leviatã”, citando um cenário em que, sem regras ou instituições, os indivíduos viveriam em permanente conflito, em uma guerra de “todos contra todos”.

Anderson Vicente argumenta que violência também está enraizada em comportamentos do dia a dia
Anderson Vicente argumenta que violência também está enraizada em comportamentos do dia a dia

Variações

O doutor em Antropologia e pós-Doutor em Antropologia das Emoções Anderson Vicente argumentou que a violência também está enraizada em comportamentos e ações do dia a dia.

“Podemos compreender a violência como uma força ativa que permite aos sujeitos romper com certas regras sociais, buscando transformar em certa medida as estruturas e relações, produzindo realidades específicas para demandas específicas”, pontuou.

“No caso do Brasil, percebemos no cotidiano diferentes formas de violência disfarçadas de brincadeiras, hábitos ou expressões do senso comum. Palavras, gestos, comportamentos e ideias, quando não pensadas do ponto de vista do outro, da diversidade sociocultural do país, vão contribuir para a naturalização da violência". O patriarcalismo, o machismo, o racismo estrutural e institucional são estruturas que se mantêm firmes na vida cotidiana e se perpetuam ao longo do tempo na história social e cultural. Precisamos entender que eles ‘normalizam’, pelo discurso e práticas sociais, as formas de isolamento social, o adoecimento psíquico e social dos sujeitos e alimentam a cultura do silêncio e da impunidade”, apontou.

Darlindo explica que a violência é moldada a partir de escolhas individuais e coletivas
Darlindo explica que a violência é moldada a partir de escolhas individuais e coletivas

Desconstrução

“A violência é uma produção humana e como tal é construída e desconstruída a partir das escolhas individuais e coletivas que fazemos enquanto sujeitos e sociedade. Tudo está sempre em aberto", contou o psicólogo e pesquisador na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Darlindo Ferreira. Mas em que medida o ambiente social pode potencializar ou conter os atos violentos?

“Nossa civilização está se reconfigurando com os acelerados avanços no campo da Ciência, sobretudo com o que se anuncia com a chegada da Inteligência Artificial e Computação Quântica. Contudo, sejam quais forem os contextos, nós precisamos de modos de nos relacionarmos em que razão e a emoção encontrem espaços de experiências fundadores de uma compreensão de si, de mundo coletivo e ao mesmo tempo singular. Privilegiar espaços educacionais em que se desenvolvam habilidades de competências para lidar com o diálogo, compaixão, respeito ao diferente será sempre um desafio em um mundo cada vez mais balizado por modos de relacionamento mais individualistas e competitivos, que valorizam uma positividade via exaustão do próprio corpo e saúde mental”.

Descobrir de onde vem a violência é, no fundo, tentar entender o próprio ser humano. As evidências mostram que ela não nasce de um único fator, mas da interação entre biologia, mente e sociedade. Compreender essas origens é um passo essencial não apenas para explicar o fenômeno, mas para pensar formas de reduzi-lo.


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